O DISCO DE 79




A década de 70, a mais marcante para muitos fãs, encerra-se com um disco em grande estilo. Roberto Carlos 1979 apresenta o rei na capa em um plano escuro, uma luz vinda do lado direito e iluminando metade do seu rosto. Nesse disco em especial, podemos notar um grau a mais no eco em sua voz, talvez uma das muitas marcas registradas que deixaram as músicas desse disco marcantes e fixas na cabeça de muita gente. Esse disco é (por enquanto) o único em vinil que eu tenho em espanhol, mas como o Roberto diz em Seres Humanos: Aiiiinda!


Lado A
01.  Na paz do seu sorriso (Roberto Carlos e Erasmo Carlos)
02. Abandono (Ivor Lancellotti)
03. O ano passado (Roberto Carlos e Erasmo Carlos)
04. Esta tarde vi llover (Armando Manzanero)
05.  Me conte a sua história (Roberto Carlos e Erasmo Carlos)
Lado B
01. Desabafo (Roberto Carlos e Erasmo Carlos)
02. Voltei ao passado (Mauro Motta e Eduardo Ribeiro)
03.  Meu querido, meu velho, meu amigo (Roberto Carlos e Erasmo Carlos)
04.  Costumes (Roberto Carlos e Erasmo Carlos)
05. As vezes Penso (Eduardo Lages e Paulo Sérgio Valle)

Lado A
01. Na paz do seu sorriso (Roberto Carlos e Erasmo Carlos)
Arranjo de Jack Cortner.
Aqui a dupla Roberto e Erasmo ressalta a paz do sorriso da pessoa amada, a paz em estar com a pessoa, a realização dos sonhos, ver, sentir e estar feliz com o momento em que se vive. Essa música tapa a boca de muita gente que não conhece Roberto Carlos e que falam que suas canções falam apenas de sofrimento, de perda. O que não é verdade. Roberto tem músicas para todas as ocasiões. Essa por exemplo pede um vinho, à meia luz, num final de tarde de sábado e... claro, já ia me esquecendo. Tire o telefone do gancho hehe. Essa música teve uma releitura em inglês no disco de 1981. At peace in your smile

02. Abandono (Ivor Lancellotii)
Arranjo de Al Capps.
Falando em perda, essa música aqui é da famosa linha estilo corta pulso. Porém a letra situa-se em um tempo de espera, almejando uma volta da pessoa amada. Se voltar não me censure / se voltar não faça espanto/ dê um jeito nessa casa... ou seja, o vazio, nada funciona quando não estamos perto de quem amamos. Destaque para o violão bem conduzido, se alguém souber o nome de quem tocou esse violão, eu agradeço.

03. O ano passado (Roberto Carlos e Erasmo Carlos)
Arranjo de Jimmy Wisner.
O bom e velho Jimmy aparece senhoras e senhores. A letra é uma bela alfinetada ao progresso que, digamos, começava a colocar as manguinhas de fora. Nos versos (as chaminés do progresso não podem parar, silenciosos voadores, quem brinca com a natureza, envenena a própria mesa...) Lembrem-se que a dupla Roberto e Erasmo já tinha falado em progresso, na música homônima em 1976. No lançamento do disco acústico em 2001 no programa do Faustão, o apresentador lembrou que Roberto já falava em ecologia quando isso nem era moda ainda, ou seja, Roberto é um cara à frente do seu tempo. Erasmo em seu show “Cover” antes da canção “Panorama Ecológico” falava que antigamente ninguém entendia quando na década de 70 ele e Roberto falavam de ecologia.

04. Esta Tarde vi llover (Armando Manzanero)
Arranjo de Frank Owens.
Nessa canção, Armando Manzanero relata sobre (Esta tarde) onde se vê a chuva, a noite, os pássaros enamorados e com toda a paisagem, o clima de amor no ar, não se vê a pessoa amada, novamente o vazio que a pessoa deixa em nossas vidas quando parte.
                                    
05. Me conte a sua história (Mauricio Duboc e Carlos Colla)
Arranjo de Al Capps.
Na letra dessa canção, a dupla Duboc e Colla falam de uma situação diferente das situações que estamos acostumados a ouvir na voz de Roberto. Seria um amor novo chegando, a fase do conhecimento, geralmente vem depois da fase da conquista. Bom, melhor eu não me aprofundar muito, mas vamos lá. Geralmente queremos saber a história da pessoa que está a um passo de ser promovida a pessoa amada. (Conta pra mim seus desejos/ o sonho escondido que não realizou/ me fala dos seus erros/ do quanto chorou e ninguém percebeu) esta aí uma variação diferente em letra de música. Geralmente quando saímos de um relacionamento e depois de um tempo vamos para outro, vamos meio que (pisando em ovos) com cuidado, pois a gente leva tanta bordoada que se pudéssemos evitar passar a imagem de trauma para a pessoa que chegou agora, seria bom. Mas muitas vezes nem nos damos conta de que a pessoa que está chegando para fazer parte da nossa vida, pode ter vindo de um perrengue daqueles também. 



Lado B
01. Desabafo (Roberto Carlos e Erasmo Carlos)
Arranjo de Al Capps.
Toda vez que escuto essa canção me vem a Angela Maria na cabeça, em virtude do belíssimo dueto que ela fez com o rei em um dos especiais da Globo. Tudo o que é falado na letra é um verdadeiro (jogar na cara) da pessoa amada, quase sempre aquela para quem nós damos o sangue e no fim das contas não faz muita diferença. No show em Viña Del Mar no Chile em 1989, Roberto fala antes da música uma característica muito curiosa. Mudando um pouco o padrão das postagens coloco o vídeo aqui. 



02. Voltei ao passado (Mauro Motta e Eduardo Ribeiro)
Arranjo de Jimmy Wisner.
Motta e Ribeiro falam do tipo de situação em que voltamos ao passado e pensamos no penúltimo relacionamento. Quase sempre é assim: terminou o atual, você volta a pensar no último, sendo que o atual ficou sendo o último, o anterior ficou sendo o penúltimo. É o exemplo claro da recaída. Mas sempre com o pensamento no final. Será que não foi melhor que no fim das contas eu não fui atrás da fulana? Experiência própria meus amiguinhos, eu já fui atrás da penúltima e quando cheguei lá, ela estava noiva, me senti um imbecil, mas deixei um cd com as músicas que eu tinha acabado de gravar, 90% falando dela.
Que coisa não?

03. Meu querido, meu velho, meu amigo (Roberto Carlos e Erasmo Carlos)
Arranjo de Jimmy Wisner.
Essa machuca. Depois de Minha Tia 1976, Lady Laura, Roberto homenageia o Sr. Robertino Braga, seu pai. Pouco depois do disco ser lançado, lembro que eu estava numa esquina de uma rua eu com quatro anos e pedia um gibi para o meu pai, devia ser o enterro ou velório do meu avô materno, minha mãe sofreu muito, e por muitos anos, até hoje diz não poder ouvir essa música. De 1990 para cá, eu não posso mais ouvir, pois meu pai faleceu em 1990 em dezembro. Roberto foi fundo nessa letra e colocou nela, tudo o que sentia. Mais uma vez chamo a atenção para mais uma das qualidades do Roberto, a identidade dos seus fãs. Todas as pessoas devem reconhecer que se identifica com alguma canção do Roberto, ele atinge a todas as classes, todas as situações, todas as idades.

04. Costumes (Roberto Carlos e Erasmo Carlos)
Arranjo de Jack Cortner.
Segundo fontes Robertísticas muito confiáveis, a separação de Roberto e Nice ocorreu em março de 1978. Está bem claro que essa música fala a respeito da separação.

05. As vezes penso ( Eduardo Lages e Paulo Sergio Valle)
Arranjo de Jimmy Wisner.
Até 1979 não me lembro de alguma composição de Eduardo Lages em um disco do Roberto, porém, se essa for a primeira, já chega com maestria. Belíssimo arranjo de Jimmy Wisner, a canção fala do (pensar) no recomeço, de voltar ao início, (pra fazer as coisas que a gente não fez) e do amor dos que estão em início de relacionamento (dos que amam sem saber, sem poder prometer, se existe um amanhã)... Esse espírito de (o amanhã a Deus pertence), é próprio dos apaixonados em começo de namoro.  




Considerações Finais.
O disco fecha a década de 70 com chave de ouro. Lembrando que os anos 70 foram a transição do Roberto da Jovem Guarda para o Roberto romântico e adulto. Mais uma vez ressalto, quando muito fulano por aí fala que Roberto nunca muda, dá vontade de fazer o fulano escutar toda a discografia do rei, pois Roberto é o que mais muda, mais se arrisca. Perfeccionista que é, sempre acerta. Os anos 60 com a Jovem Guarda, o negócio era o rock, o ritmo que timidamente tinha chegado por aqui, meio que simultaneamente.
Nos anos 70, a identificação do público com ele, um público ouvia-o na Jovem Guarda, mas que com os anos, já deviam estar casados, vida em família, do estilo de Quando as Crianças Saírem de Férias. Por isso, Roberto é contemporâneo, ao mesmo tempo atemporal e a frente do seu tempo.
Esse disco vem com a equalização perfeita, uma perfeição que ele já vinha buscando de disco em disco. No que podemos falar da prensagem da gravadora, os discos de 77 várias cópias que eu peguei, soam meio que abafadas. Os de 78 estão melhores. Os de 79 e de 80 estão chegando na melhor sonoridade que eu já ouvi que são os discos do ano de 1981,
Gravado nos estúdios FILMWAYS/HEDER – Los Angeles
                                     A&M STUDIOS         - New York
                                        CBS

 Uma rara foto da sessão de 1979

Fotos de Darcy Trigo

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O DISCO DE 1986



Lado A
Apocalipse (Roberto Carlos/Erasmo Carlos)
Do fundo do meu coração (Roberto Carlos/Erasmo Carlos)
Amor Perfeito (Michael Sullivan/Paulo Massadas/Lincoln Olivetti/Robson Jorge)
Quando vi você passar (Mauro Motta/Isolda)
Eu sem você (Mauricio Duboc/Carlos Colla)
Lado B
Nega (Roberto Carlos/Erasmo Carlos)
O nosso amor (Roberto Carlos/Erasmo Carlos)
Tente viver sem mim (Mauro Motta/Robson Jorge/Lincoln Olivetti)
Aquela casa simples (Roberto Carlos/Erasmo Carlos)
Eu quero voltar pra você (Eduardo Lages/Paulo Sergio Valle)



Lado A
Apocalipse (Roberto Carlos/Erasmo Carlos)
Arranjos – base: Cleberson Horsth  / cordas: Charlie Calello
Roberto abre o disco com um alerta. A canção tem uma base forte, guitarras bem marcadas, um solo poderoso. Roberto e Erasmo voltam em um tema que de uma certa forma já tinham falado nos versos “o vento irá soprar, e o chão vai se abrir...” em Eu só tenho um caminho de 1971. O especial do ano de 1986, foi um especial que particularmente  eu não assisti, sei lá por qual motivo, mas acho que é porque na época minha TV não pegava a Globo. Hoje tenho o especial aqui, mas preciso assistir de novo. Também não tive o disco logo de cara, porém, eu esperava tocar Apocalipse no rádio, na época não tínhamos o (boom) das fms, o jeito era esperar as Am´s mesmo. O tema é atual até os dias de hoje, estamos vivendo esse apocalipse todo. Até Michel Teló esteve no especial de 2012. Quer mais prova de fim de mundo que essa?


Do fundo do meu coração (Roberto Carlos/Erasmo Carlos)
Arranjos: base: Cleberson Horsth  / cordas: Charlie Calello
No show do Maracanã, essa música é revisitada. No comentário, ainda na introdução da canção, Roberto fala que queria, em toda sua vida, ter escrito canções de amor, um amor bem sucedido, mas fala que “a vida não é bem assim né?” o rei diz que em  certos momentos a bronca é muito grande e ainda diz “a coisa tava... braba”. Uma das maiores e melhores canções de amor de todos os tempos. A letra é uma obra-prima. Fala daquele amor estilo Bungee jumping, vai e volta.


Amor Perfeito (Michael Sullivan/Paulo Massadas/Lincoln Olivetti/Robson Jorge)
Arranjos – base: Lincoln Olivetti  / cordas: Charlie Calello
Falando em amor bem sucedido, esta é uma canção da dupla Sullivan e Massadas que reflete bem o amor bem sucedido. Roberto a canta em seus shows hoje, canta com uma emoção que parece estar sendo cantada para Maria Rita. Os versos: “fecho os olhos pra não ver passar o tempo/eu não vou saber me acostumar sem sua mão pra me acalmar/sem seu olhar pra me entender/sem seu carinho amor sem você...” No verso “até quando te querendo te amando” Roberto diz: “até sempre” e prossegue a letra: “coração quer te encontrar...”. Essa música foi regravada pela loiríssima, poderosa, Claudia Leite. Na última edição da Virada Cultural em São Paulo, Michael Sullivan tocou essa em pleno Largo do Arouche.

Quando vi você passar (Mauro Motta/Isolda)
Arranjos – base: Cleberson Horsth  / cordas: Chiquinho de Moraes
Bela canção da dupla Isolda e Mauro Motta. A letra fala de quando vemos a pessoa, que ao que parece já não está mais com a gente, passar por nós. Nesse tipo de situação, tudo volta na lembrança, tudo é revisitado e almejamos um desejo de (tentar) de novo.  

Eu sem você (Mauricio Duboc/Carlos Colla)
Arranjo – base: Lincoln Olivetti  / cordas: Eduardo Lages
No geral, esse disco soa um pouco mais digital, é o início de uma nova era nos discos de Roberto, a tecladeira começa a tomar conta. Tudo clean (limpinho) demais. Um passo rumo à tecnologia, pois em 1986, esse disco do rei, supera qualquer lançamento de um artista nacional, por isso que eu sempre digo: Roberto Carlos, sempre esteve e sempre estará um passo a frente de todo mundo. O nome da canção é o mesmo nome de uma canção do disco de 1988.



Lado B
Nega (Roberto Carlos/Erasmo Carlos)
Arranjos – base: Lincoln Olivetti  / cordas: Marcio Montarroyos
No ano de 1986 Roberto foi tema do enredo da Escola de Samba Unidos do Cabuçu. O rei curtiu tanto que naquele ano ele com Erasmo Carlos fariam o samba com o título Nega. É um samba gostoso e não há quem fique parado na hora do solo de metais. No show do Chile de 1994, do qual circula um dvd por aí, no solo de Piel Canela (Nega em versão espanhola), o público vibra com o solo do trio saxofonista real. Quando sou questionado sobre samba, digo que gosto de Benito di Paula e dos sambas gravados por Roberto. Maria, carnaval e cinzas, Nega, O que é que eu faço, Só você não sabe e Vê se volta pra mim. Esta última de 1998, foi a principio mal recebida, pois todo mundo questionou: Roberto agora gravou um pagode? Mas é um pagode legal, eu que sou avesso à pagode gostei por se tratar de um pagode do Roberto. Em tempo: Roberto ainda é o cara que arrisca, que ousa, em 2012 ele gravou o funk “Furdúncio”.

O nosso amor (Roberto Carlos/Erasmo Carlos)
Arranjos – base: Nico Resende  / cordas: Charlie Calello
Novamente a tecladeira dá as caras no disco. Uma letra que fala da incompatibilidade de gênios. “Tínhamos sonhos tão possíveis, no amor os mesmos pensamentos, mas gênios tão incompatíveis, jogaram fora bons momentos...”. Realmente viver uma situação dessas, desgasta qualquer um. 

Tente viver sem mim (Mauro Motta/Robson Jorge/Lincoln Olivetti)
Arranjos – base: Nico Resende  / cordas: Charlie Calello
Tente viver sem mim é uma letra bem no estilo: tá reclamando, se vira sozinha então. Um tom meio sádico é usado por Roberto ao cantar a canção. E reflete bem o que vivemos, realmente quando passamos por uma dessas, quase falamos:”pago pra ver, você viver sem mim”.

Aquela casa simples – base e cordas: Chiquinho de Moraes
Arranjos – base e cordas: Chiquinho de Moraes
Uma música auto biográfica que traz recordações ao nosso rei. Há pessoas que devem se debulhar em lágrimas ao ouvi-la. Pois muita gente se identifica com a partida de casa. Roberto quando saiu de casa, saiu pra conquistar a glória, mas sua luta foi sofrida. Ele bateu na porta de todas as gravadoras, levou muito o seu disco embaixo do braço. Não conhecia ninguém, não tinha contato algum. Essa música foi revisitada no show do Maracanã.

Eu quero voltar pra você (Eduardo Lages/Paulo Sergio Valle)
Arranjos – base e cordas: Eduardo Lages
Fala do momento em que não queremos admitir que queremos voltar para o amor, quando esse se encontra na atual condição de ex. A temática (como é que vai a sua vida), ou (como estão as coisas), (faz tempo que a gente não se vê)... São as recordações que nos fazem desejar uma possível volta.

O disco de 1986 é um disco que explora mais a tecnologia, a tecladeira. Roberto está com uma voz suave no disco, há bastante reverb em sua voz tbm. Mas mesmo em 1986 já começava a explorar um pouco mais o lance da bateria eletrônica e toda  a tecladeira disponível no mercado. Os arranjos são divididos entre cordas e base, exceto nas últimas duas faixas.
Gravado nos estúdios: Sigla (RJ), Sigla (SP), Lincoln Olivetti (RJ), Transamérica (SP), Intersom, Darci Ferreira.

Fotos: Luis Garrido. 



Pra terminar, uma foto bem curiosa que encontrei na net. 

 

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O DISCO DE 1966 - WITH THE ROBERTO CARLOS




A postagem abaixo é completamente copiada e colada do Blog do leitor, amigo, sócio do Súditos, Robert Moura, pra quem quiser conhecer o blog dele o Rock N Geral no link http://rockngeral.blogspot.com.br/2009/04/o-album-beatle-de-roberto-carlos-normal.html
Normalmente eu monto minhas próprias postagens, mas nesse caso, eu pedi licença pra copiar e colar, pois a postagem dele está muito mais legal do que as minhas hehe. 

Sempre que se faz uma lista dos discos mais importantes da história do rock brasileiro é comum que sejam citados dois álbuns gravados por Roberto Carlos, “Jovem Guarda”de 1965 ou “Roberto Carlos Em Ritmo De Aventura” 1967. Dois grandes discos, sem dúvidas, porém, entre esses dois anos o cantor lançou outro grande LP comumente ignorado em favor desses. É o disco de 1966 que aqui chamo de “O Álbum-Beatle de Roberto Carlos”. Esse é o primeiro disco no qual transparece a influência do quarteto de Liverpool na obra do Rei, desde a capa inspirada no disco “With The Beatles” lançado na Inglaterra em 1963, o que denuncia uma influência tardia já que a base do disco de Roberto Carlosprevalece o rock chamado de Iê, Iê, Iê e na época os Beatles já estavam partindo para outros caminhos e experimentações sonoras (vide os discos “Rubber Soul” de 1965 e “Revolver” de 1966). 

O faixa de abertura é “Eu te darei o céu”, considerada por alguns uma possível resposta de Robertoà canção do ano anterior “Quero que vá tudo pro inferno” embora o autor da canção (em parceria com Erasmo Carlos) afirme que não teve nada a ver. A frase de guitarra na introdução da canção lembra as sonoridades que os Beatlese os Byrds haviam produzido, aliás, as guitarras do disco puxam bastante para as gravações realizadas pelos FabFour entre 1964/65. A mudança da tonalidade maior para a menor na terceira parte quando canta: “Toda minha vida eu já te dei..."lembra a variação de acordes explorada pelos Beatles em “From Me To You” no trecho: I got arms that long to hold you...” quando a mesma tem uma modulação maior para menor. A condução feita no violão e o solo de “Nossa Canção” (Luiz Ayrão) têm ecos no elegante solo de violão executado por George Harrison na regravação da música “Till There As You”feita pelos Beatles, sendo essa música ainda uma das mais belas interpretações dos primeiros discos de Roberto Carlos. “Querem acabar comigo”, composição solitária de Roberto Carlos, é um caso à parte, de uma originalidade incrível, desde a letra em tom de autodefesa depois disfarçada em uma canção de amor (“Querem acabar comigo nem eu mesmo sei porque...enquanto eu tiver você aqui, ninguém poderá me destruir”), passando pelo arranjo bem ousado e moderno para a época sobretudo a condução dos tambores, tendo grande destaque também o órgão tocado por Lafayette, aliás esse na verdade era um dos grandes diferenciais na sonoridade de RCpara os Beatles, que se baseavam mais nas cordas sendo ainda que frequentemente Roberto se utilizava dos metais que por acaso (ou não) quase não aparecem nesse disco ao contrário de TODOS os anteriores e posteriores.
Na seqüência a regravação da bela balada “Esqueça” (“Forget Him”) de Mark Anthony versionada para o português por Roberto Corte Real com uma levada no melhor estilo “Things We Said Today”, canção de Lennon-McCartney incluída na trilha sonora do disco “A Hard Day´s Nigth” 1964 (no Brasil, “Os Reis do Iê, Iê, Iê”), este álbum contém ainda a música “And I Love Her” que foi gravada por Roberto Carlos vinte anos depois como “Eu Te Amo” em versão de sua própria autoria, sendo até então a única gravação efetuada por ele de uma canção dos Beatles. “Negro Gato” de Getúlio Côrtes, descaradamente inspirada na composição “Three Cool Cats” da dupla de compositores Jerry Leiber e Mike Stoller (responsáveis por diversos clássicos do Rock´n´ Roll) é uma das mais vibrantes e roqueiras gravações de RC, a guitarra sensacional gravada pelo músico Gatodá a tônica da canção junto com os berros de Roberto Carlos. Detalhe: a música “Three Cool Cats” fazia parte do repertório dos Beatlesantes da fama e está presente no disco “Anthology 1” de 1995 com a versão interpretada por eles em um teste para a gravadora Decca.
Fechando o primeiro lado A, “Eu estou apaixonado por você” com uma sonoridade mais latina que apesar da letra ingênua pode ser vista como um embrião da fase “latin lover” que o cantor viveu no final dos anos 1970 com uma interpretação sensual feita com uma voz quase gemida. O solo de gaita nessa faixa seria por influência de John Lennon, vide as canções "Love Me Do", "Please, Please Me", "I Should Have Know Better", entre outras músicas dos Beatlesque o músico toca esse instrumento?

O lado B abre com a faixa “Namoradinha de um amigo meu” assinada somente por Roberto Carlos (embora ele tenha dito numa entrevista que Erasmo tenha modificado algumas coisas) e que por ironia do destino foi escrita para uma banda chamada Beatniksgravar, porém eles finalizaram o disco antes que Roberto tivesse enviado-lhes a música. Mais uma vez o órgão prevalece na condução da música. “O Gênio” também de Getúlio Côrtes tem novamente ritmo pulsante e guitarras na linha de frente e é a única faixa que apresenta um solo de saxofone no disco. A balada “Não Precisas Chorar” de Edson Ribeirotambém apresenta boas frases de guitarra, sempre com uma sonoridade bem beatle. O “Golden Boy” Renato Corrêa e Donaldson Gonçalvesassinam um dos maiores clássicos do repertório roqueiro do Rei, “É Papo Firme” que narra o comportamento de uma garota “prafrentex” “que gostava de gíria e muito embalo”, mais uma vez a guitarra faz o papel principal, desde sua interessante divisão de tempo na introdução até o solo cheio de energia, durante toda a música a guitarra dialoga com o órgão nos intervalos das frases cantadas por RC. “Esperando Por Você” da compositora Helena dos Santos têm como destaque essa dobradinha guitarra-órgão. Para fechar “Ar de Moço Bom” de Othon Russo e Niquinho que Robertocanta com voz macia do jeito que manda o figurino de um bom rapaz. Esse disco mostra claramente que a influência dos Beatles sobre o Rei do Iê, Iê, Iê foi muito além dos terninhos que ele usava no programa Jovem Guarda. Roberto consegue mostrar que existe uma diferença entre ser influenciado e simplesmente copiar.


Nota: Desse disco existe um ensaio que circula pela internet com Roberto ensaiando com a banda as músicas que entrariam para esse disco. Ensaio que comentarei em outra postagem.

Fotos: capas de Roberto Carlos (1966) e With The Beatles(1963) e Roberto Carlos tocando uma guitarra Rickembacker de 12 cordas popularizada pelo uso de George Harrison.


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